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Foragida, esposa é vista pela promotoria em papel central de manobras de Queiroz
Publicado em 24/06/2020 17:06

Juiz Itabaiana afirmou que Márcia teve papel fundamental para obstruir investigações.

(Foto: Cristiane Mattos / Futura Press/Folhapress)

A mulher de Fabrício Queiroz, Márcia Oliveira de Aguiar, segue foragida após operação deflagrada nesta terça-feira (23) em Minas Gerais ter falhado em encontrá-la. O Ministério Público do Rio de Janeiro e de Minas Gerais e a Polícia Militar do estado cumpriram quatro mandados de busca e apreensão em endereços de parentes de Queiroz, em Belo Horizonte.

 

A Promotoria e a Justiça do Rio consideram Márcia uma ameaça para a investigação que apura um suposto esquema de rachadinha no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia do Rio. Tanto Queiroz como Márcia foram assessores do filho do presidente Jair Bolsonaro na Legislativo do estado.

 

O mandado de prisão contra Márcia foi determinado pela Justiça de Rio junto ao de Queiroz. O ex-assessor, apontado pela Promotoria como o operador financeiro do esquema, foi preso na última quinta-feira (18) pela Operação Anjo. Ele foi encontrado em um sítio em Atibaia (SP), propriedade de Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro.

 

Na segunda-feira (22), a defesa de Márcia ingressou com um pedido de habeas corpus para revogar a prisão preventiva. A peça foi distribuída nesta terça-feira para a 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio. O procedimento é mantido em segredo de justiça.

 

No despacho que ordenou as prisões, o juiz Flávio Itabaiana, da 27ª Vara Criminal, afirmou que Márcia teve papel fundamental para obstruir as investigações e que, em liberdade, poderia continuar a agir sob as ordens do marido.

 

Outro motivo para a determinação da prisão preventiva foram os indícios coletados pelo Ministério Público de que o casal poderia tentar fugir de uma futura aplicação da lei penal. O juiz Itabaiana também ressaltou, em seu despacho, que os investigados forneceram, inclusive, endereço falso.

 

"Ambos estão se escondendo, recebendo auxílio de terceiro (...), não se podendo perder de vista que ambos cogitam fugir caso tenham ciência de que foi decretada sua prisão preventiva", escreveu o magistrado.

 

As ordens de prisão foram expedidas no contexto da investigação do Ministério Público que apura um esquema de devolução de salários no gabinete de Flávio Bolsonaro. Segundo a Promotoria, 11 assessores vinculados ao então deputado repassaram pelo menos R$ 2 milhões a Queiroz, sendo a maioria em espécie, de 2007 a 2018.

 

Os promotores também apresentaram indícios de que o ex-assessor teria pago em espécie a mensalidade escolar das filhas e o plano de saúde da família de Flávio. Essa teria sido uma forma de lavar o dinheiro obtido com a suposta rachadinha.

 

Márcia Aguiar esteve nomeada no gabinete de Flávio de 2007 a 2017, com um salário líquido de R$ 9.207. Ela repassou cerca de R$ 450 mil ao marido. Quando deixou o gabinete, Márcia foi substituída pela filha, Evelyn Mayara Aguiar, que ganhava um salário líquido de R$ 6.370.

 

Outros dois membros da família, duas filhas de Queiroz, também foram assessoras de Flávio. A suspeita é a de que os familiares do PM aposentado fossem funcionárias fantasmas.

 

Em dezembro, parentes de Queiroz foram alvos de mandados de busca e apreensão. Mensagens encontradas em celulares apreendidos na ocasião serviram como base para que o Ministério Público pedisse a prisão preventiva do casal, alegando tentativa de interferir nas investigações, possibilidade de fuga e perigo à ordem pública.

 

Márcia, segundo a Promotoria, teve papel central ao auxiliar as manobras do marido. Mensagens de agosto de 2019 obtidas pelo MP-RJ mostram que, enquanto Queiroz se mantinha escondido, a mulher recebia dinheiro de terceiros para sustentar a família.

 

"Sabe me dizer se deram o dinheiro do mercado e das coisas da Melissa?", perguntou à filha Mayara, depois de contar sobre um desentendimento com o "Anjo" (Wassef) após publicação de reportagem sobre Queiroz. "Deram", respondeu a jovem.

 

De acordo com a Promotoria, anotações em uma caderneta apreendida na casa de Márcia e recibos do Hospital Albert Einstein também comprovam que a mulher de Queiroz recebeu pelo menos R$ 174 mil em espécie e que pagou as despesas do atendimento com dinheiro vivo.

 

Sob instruções de "Anjo", ou Wassef, Márcia e Queiroz desligavam os celulares antes de ingressarem em Atibaia, tentando impedir o rastreamento da localização.

 

Em novembro, de acordo com o MP, Queiroz disse a Márcia que "Anjo" queria levar toda a família para São Paulo se o julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o uso de relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) em investigações criminais fosse desfavorável. Foi a partir de um relatório do órgão que as movimentações financeiras atípicas do ex-assessor foram identificadas.

 

"Morar aí? Acho exagero. Só se estivéssemos com prisão decretada. Sabe que isso será impossível né?", respondeu Márcia, indicando que poderia fugir de uma eventual ordem de prisão.

 

Márcia também teve papel fundamental na comunicação entre Queiroz e o ex-capitão do Bope, Adriano da Nóbrega. Morto em uma operação policial na Bahia em fevereiro deste ano, Adriano era apontado como líder do grupo miliciano Escritório do Crime. Amigo de Queiroz, conseguiu empregar a mãe e a mulher no gabinete de Flávio Bolsonaro.

 

Durante o período em que permaneceram no gabinete, Danielle Mendonça da Silva e Raimunda Veras Magalhães obtiveram remuneração de R$ 1 milhão. Desse valor, R$ 400 mil retornaram para Queiroz.

 

Fonte: Ana Luiza Albuquerque e Fernanda Canofre - Folhapress

 

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