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Moradores de ocupação denunciam truculência da PM; corporação fala em desacato
Publicado em 24/06/2019 14:06

Vídeos mostram ação de oficiais das polícias Militar e Civil com balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta. Em nota, a Polícia Militar afirma que houve “consumo de drogas, resistência à abordagem e desacato à autoridade”.

(Foto: Reprodução / O Tempo)

Uma ocorrência para prisão de dois jovens e apreensão de um adolescente por uso de drogas terminou em confusão nas portas do Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Autor de Ato Infracional (CIA). De um lado, moradores da Ocupação Eliana Silva, na Região do Barreiro, acusam as polícias Militar e Civil de agir com truculência, devido ao uso de balas de borracha, spray de pimenta, bombas de gás lacrimogêneo e cassetetes. De outro, a Polícia Militar de Minas Gerais informa que houve “consumo de drogas, resistência à abordagem e desacato à autoridade, condutas definidas pela Lei como crimes, sendo medidas policiais cabíveis a prisão e a condução à polícia Judiciária para providências de flagrante delito.”

O caso ocorreu na noite desse sábado (22), na Rua Rio Grande do Sul, no Bairro Barro Preto, Região Centro-Sul da cidade. Vídeos gravados pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) mostram a ação de diversos PMs e policiais civis lotados na Patrulha Metropolitana Unificada de Apoio (PUMA). O fato ocorreu quando um grupo de manifestantes protestava contra a detenção de Matheus Rodrigues da Silva Souza, de 28 anos; Victor Marciano da Silva, de 19; Poliana de Souza Ferreira Inácio, 31; e um jovem de 16 – todos moradores da Ocupação Eliana Silva.

Segundo o Boletim de Ocorrência registrado pela polícia, Victor foi detido por resistência, enquanto Matheus e o adolescente foram presos por consumo de drogas. As prisões aconteceram na manhã de sábado, na Rua Santa Tereza de Ávila, por volta das 7h. De acordo com a PM, uma porção de droga foi encontrada com eles.

Segundo os envolvidos ouvidos pela reportagem, os militares agrediram os dois jovens e o menor antes de colocá-los na viatura. De imediato, conforme as mesmas testemunhas, moradores da ocupação acionaram a liderança da comunidade, Poliana de Souza, coordenadora nacional do MLB e irmã de Victor, um dos presos.

 

De lá, moradores se deslocaram à delegacia mais próxima: a 12ª Companhia da PM, na Avenida Senador Levindo Coelho, no Bairro Vale do Jatobá, no Barreiro. A comunidade se mobilizou com objetivo de saber para onde o adolescente e os dois jovens haviam sido conduzidos.

A PM disse que os detidos estavam na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) Diamante, ainda no Barreiro. “Chegando na UPA, os moradores viram que o Victor tinha machucado muito e sentia muitas dores. Ele tinha ralado o rosto no chão e com o dedo bastante inchado”, conta o advogado Thales Viote, que defende os jovens detidos.

Em meio à confusão, Thales tentou ter acesso aos dois jovens e ao adolescente, conforme previsto na legislação. Contudo, como mostra o vídeo que ele mesmo registrou, o advogado teve dificuldade para conversar com os clientes. O Boletim de Ocorrência confirma a versão do profissional e informa que a guarnição não permitiu o contato “devido à agressividade dos autores”.

Mais uma prisão

Sob a acusação de desacato, a PM também prendeu a coordenadora nacional do MLB, Poliana de Souza. Segundo a polícia, ela dirigiu diversos xingamentos aos militares, versão negada pelo advogado Thales Viote.

Da UPA Diamante, os quatro detidos foram conduzidos ao Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Autor de Ato Infracional (CIA), no Barro Preto. No local, um aparato policial foi montado, formado por agentes das polícias Civil e Militar.

Revoltados com a situação, moradores da Ocupação Eliana Silva protestaram na porta da CIA. Jornalistas independentes e lideranças religiosas também estavam no local.

A vereadora Cida Falabella (Psol) também foi ao Barro Preto. “Tinha um grande aparato da Polícia Civil, e também da Militar, e com muitas provocações. A polícia pedindo celulares, impedindo o trabalho da Mídia Ninja e questionando a cobertura”, relata.

De acordo com o BO, os manifestantes “passaram a atrapalhar o bom andamento” da ocorrência. A versão é contrariada pela vereadora. “Houve um gasto excessivo com um aparato totalmente desnecessário sob a alegação de que o grupo queria invadir o espaço do CIA. Eu estava lá. Eu presenciei isso e não existia nenhum movimento nessa direção. É uma recorrência da violência dentro das ocupações”, destaca.

Cida Falabella também contou que Poliana de Souza precisou ser levada à UPA Centro-Sul, pois se queixava de dores nos braços, devido ao aperto das algemas. No Boletim de Ocorrência, no entanto, a corporação sustenta que a própria mulher pressionou o equipamento contra o braço.

No momento em que Poliana deixava a unidade policial, uma quinta pessoa foi presa, uma mulher que gravava a situação, denominada Edneia, segundo moradores da ocupação. O nome de Edneia não consta no Boletim de Ocorrência. Ela foi detida, conforme testemunhas ouvidas pela reportagem, por se negar a repassar o celular que gravava a situação aos militares.

A partir daí, ocorrem as explosões das bombas, os tiros de bala de borracha e o acionamento do spray de pimenta. “Foi um negócio totalmente desproporcional. Eu nunca vi isso. Tem anos que acompanho manifestação e violência policial, mas eu nunca vi um negócio como esse, tão gratuito”, afirma o advogado Thales Viote.

A vereadora Cida Falabella compartilha da opinião dele: “Mesmo sendo vereadora, é muito pouco respeito que eles têm pelo trabalho da gente. Quando se instala uma ideia de que o povo é inimigo do estado, a coisa toma uma proporção de muita violência. A gente fica muito impactada”.

Desdobramentos

Depois da confusão, os quatro presos e o adolescente apreendido foram liberados na manhã deste domingo, por volta das 5h. Apesar disso, a vereadora do Psol afirma que o caso será encaminhado à Comissão de Direitos Humanos da Câmara de BH.

Cida também afirmou que vai se reunir com o comando das duas corporações e vai acionar a Corregedoria Geral de Polícia de Minas Gerais para “acompanhamento” da situação.

Outro lado

Em nota, a Polícia Militar informou que a provocação de tumulto interferiu no trabalho dos agentes públicos. “A ação de manifestação desordenada com provocação de tumulto que interfira no trabalho dos agentes públicos não pode ser tolerada em nenhuma hipótese, pois coloca em risco a vida, a incolumidade pública e o patrimônio de pessoas inocentes. As unidades de saúde e outros órgãos nos quais os reclamantes foram atendidos são locais públicos e obviamente estão à disposição de outros cidadãos. A tomada dos citados locais por manifestantes e a provocação de tumulto, como estampam os vídeos, interferem no andamento regular dos serviços prestados à coletividade”, informou.

A corporação afirma que Poliana “apertou as algemas por contra própria e com o propósito de causar hematomas”. A PM informou ainda que alguns dos envolvidos na ocorrência têm passagens policiais por furto, roubo tentado, tráfico de drogas, uso e consumo de droga, ameaça, calúnia, desacato, provocação de tumulto, porte ilegal de arma branca.

Em nota, a Polícia Civil de Minas Gerais informa que o acionamento do Grupo de Policiamento Metropolitano Unificado (Puma) foi feito via Divisão de Operações de Telecomunicações (Cepolc), por solicitação da equipe da Delegacia de Plantão Especializada de Investigação de Ato Infracional (Depin/CIA), visando à manutenção da ordem em razão da aglomeração de pessoas na porta da unidade e evitar eventual tentativa de resgate de conduzidos. O texto ainda indica que esse tipo de atuação é realizada com observância de normas técnicas e dentro da legalidade.

Fonte: Gabriel Ronan – Estado de Minas

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